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Amplificador Integrado CARY SLI 80

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Fernando Andrette

fernando@clubedoaudio.com.br

 

Seminovo-Cary-SLI80-silver Eu já havia cantado a bola que teríamos uma safra muito boa de amplificadores valvulados em testes nas edições do segundo semestre, e que eles estarão no Hi-End Show deste ano para ’degustação’ de todos que apreciam essa topologia que encanta desde o século passado a gerações de audiófilos! Basta dar uma lida nas últimas edições na seção ‘Hi-End pelo Mundo’ para termos ideia do interesse crescente do mercado por tecnologias ditas como ‘ultrapassadas ou mortas’.
Todos os meses o Christian Pruks posta as últimas novidades do mercado internacional, e a maioria dos lançamentos é composta de novos toca-discos, cápsulas, prés e amplificadores valvulados! Somente o mercado hi-end para comportar simultaneamente tantas tendências aparentemente tão antagônicas como os novos servidores de música, amplificadores classe D e caixas amplificadas sem fio, com tecnologias que estão presentes em nossas vidas há mais de 70 anos!
O mercado audiófilo é realmente algo bastante pitoresco, pois comporta várias ‘tribos’ amplamente distintas. A Cary Audio possui um belo currículo de excelentes prés e powers valvulados, sendo uma das mais respeitadas empresas norte-americanas do segmento
hi-end. E o integrado SLI 80 pode ser considerado um verdadeiro ‘embaixador’ da empresa, para todos que desejam um amplificador de entrada dessa topologia.
Com uma apresentação robusta e objetiva, o integrado SLI 80 possui 80 W por canal no modo ultralinear (classe AB 1) e 40 W por canal no modo triodo, aqui trabalhando em puro classe A! Possui três entradas single-ended (RCA), entrada para subwoofer, saída pré-amplificada e dois terminais de caixa para 4 e 8 Ohms. Feito em chassi de aço preto (ou com acabamento frontal em prata), ele possui da esquerda para a direita a chave de liga / desliga, o botão de seleção de entradas, um botão maior de volume, balanço, chave de mute e entrada de fones de ouvido de excelente qualidade.
O integrado SLI 80 utiliza na seção de pré-amplificação duas 6922, duas 6SNS, duas válvulas retificadoras SU4 e na parte de amplificação quatro KT 88. Outros detalhes que saltam aos olhos são os transformadores (de entrada e saída) e resistores de Metal Film, com 1% de tolerância, além dos capacitores a óleo! O fabricante indica 100 horas de amaciamento, e fala que após três minutos de aquecimento o integrado estará pronto para lhe ‘banhar de música’!     Como o produto veio lacrado, seguimos a indicação do fabricante, mantendo-o em queima por 15 dias, com intervalos de 12 horas entre cada amaciamento, afinal são válvulas, e elas dissipam um enorme calor mesmo em salas grandes!Seminovo-Cary-SLI80-silver-VT

Para o teste, utilizamos os seguintes equipamentos: caixas acústicas: Canton Reference 9,2 DC (com uma excelente sinergia), DALI Epicon 8, Evolution Acoustics MMMicro One (outra grande sinergia), Evolution Acoustics MM3, Wilson Audio Alexia (leia o Teste 1 nesta edição) e Cabasse Eole (leia o Teste 2 de vídeo nesta edição); cabos de caixa: Sunrise Lab The Illusion 2, Logical Cables Volcano, Transparent Reference MM2 e Kubala-Sosna Elation; fontes digitais: Rega Isis, Audia Flight One, Cambridge Audio Azur 851 C e dCS Scarlatti; fontes analógicas: toca-discos AMG Viella V12 e pré de phono Tom Evans Groove Anniversary; cabos de interconexão: Opus MM2 e Elation (RCA); e cabos de força: Logical Cables Iridium, Sunrise Lab Reference, Transparent Power Link MM2 e Kubala-Sosna Elation.
A primeira bela surpresa: o integrado SLI 80 sai tocando muito bem desde o primeiro instante. Claro que você terá a sensação de que tudo se concentra na região média, mas nada que não nos deixe grudado na cadeira ouvindo aquela ‘liquidez’ que nos faz esquecer de tudo à nossa volta! Os agudos e graves soarão embotados e meio tímidos, mas ainda assim aquele calor e finesse das vozes e instrumentos acústicos já estarão presentes. As primeiras mudanças ocorreram com 12 horas de queima, o grave começa a apresentar mais recorte e os agudos parecem querer ver a luz do sol! Mais 24 horas, e a música começa a se espreguiçar por uma paleta mais
aberta e precisa, nos dando uma dimensão exata do tamanho das salas de concerto e do número de músicos, com o andamento e o ritmo se mostrando mais corretos! Mas, repito, tudo dentro de uma ausência de fadiga auditiva ímpar, o que só aumenta nossa expectativa e nos faz driblar as limitações, selecionando aqueles discos que já se adéquam ao estágio de amaciamento que o integrado SLI 80 se encontra. Entre 24 e 48 horas ouvi diversos grupos de câmara, capelas, instrumentos solos e muita MPB. Minha esposa adorou este período de queima, pois ela pôde escolher diversos discos que raramente escutamos em nossa sala de testes! Com quase 72 horas, outra importante alteração: os graves finalmente se apresentaram com peso, maior deslocamento de ar e precisão! Neste período entraram alguns discos de blues e pequenos grupos de jazz, sendo que essas audições começaram a estender-se por mais de quatro horas (quando isso ocorre, sabemos que o período de amaciamento está quase no fim). Nas últimas 24 horas já estávamos debruçados na escolha do melhor cabo de força, e com qual das caixas disponíveis começaríamos o teste. Ficamos na dúvida entre as Canton e as Micro One, pois ambas se mostraram perfeitas com o integrado SLI 80. Acabei por optar pelas Canton, por já estarem amaciadas, e resolvi utilizar as MMMicroOne apenas na metade de todo o seu amaciamento (perto de 500 horas!).
Nas duas primeiras semanas, o integrado SLI 80 teve a companhia quase em tempo integral das caixas acústicas Canton, do cabo de caixa Sunrise Lab The Illusion 2, do cabo de força Iridium ou Reference e da fonte digital Rega Isis; depois, com a ida do Isis, foi utilizado o Audia Flight One. Com este setup, o integrado se comportou exemplarmente, tanto no modo ultralinear como no triodo. Para músicas mais agitadas como rock e pop, a preferência sempre recaiu no modo ultralinear, para uma melhor ‘pegada’ e maior folga na macrodinâmica. Com jazz e grupos orquestrais (não sinfonias) o modo triodo foi o escolhido, por apresentar um som mais refinado e coerente. Li em testes internacionais que alguns articulistas acharam o som em modo ultralinear mais duro em volumes altos ou tendendo a ser menos transparente. Sinceramente, com as caixas que utilizamos e os cabos tanto de força como de caixa, não notamos essa característica. O que percebemos é que o integrado SLI 80, como todo produto hi-end, é bastante suscetível a cabos e seus pares (caixas acústicas e fontes digitais ou analógicas). Ele pode alterar dramaticamente sua assinatura sônica com a troca do cabo de força. No modo ultralinear, independentemente das caixas utilizadas no teste, havia maior folga principalmente em obras sinfônicas com grande variação dinâmica, mas nada de endurecimento em altos volumes! Aliás, um dos maiores méritos do integrado é a sua enorme folga e a naturalidade, mesmo em gravações tecnicamente limitadas, que em outros amplificadores seria sofrível tentar escutá-las! Sabe aquelas coletâneas: ‘O Melhor de…’, em que o engenheiro de remasterização acha que está tudo errado e faz do modo dele, pois bem, nessas sofríveis gravações o integrado SLI 80 consegue operar verdadeiros milagres, permitindo não só ouvir as faixas preferidas, como também convidá-lo a escutar o disco inteiro. Ainda no período de queima, me peguei por diversas vezes escutando todo o disco, pois ele parecia ser muito melhor do que na realidade era!
O equilíbrio tonal do integrado SLI 80 é muito bom, ainda que o último extremo da oitava superior e inferior esteja mais presente em sensação. Você não ouve, mas sente sua presença. Mas, tirando esse detalhe, suas qualidades são tantas e tão exuberantes, que conviver com este amplificador integrado não tem nada de sacrificante, pelo contrário, depois de uma semana com ele, o difícil é voltar atrás! Pode chamar de coloração, eufonia, efeito hipnótico, do que quiser, mas que o integrado embriaga isso ele faz como poucos!
Na terceira semana de testes, o integrado SLI 80 recebeu a companhia das caixas Wilson Audio Alexia, e depois de três dias das Evolution MM3; ainda que não faça sentido colocar um integrado de menos de 18 mil reais com essas caixas, havia a curiosidade de ver como ele se comportaria com caixas de alta sensibilidade. Por algum motivo que desconheço, com ambas as caixas o integrado não se saiu bem no modo triodo: o som parecia oco e sem pegada nos graves. Porém, no modo ultralinear ele sapateou em ambas as caixas! Parecia que tinha bem mais de 80 W, tocando desde Megadeth até Béla Bartók!
No quesito soundstage, o integrado SLI 80 se saiu melhor nas caixas bookshelf em relação às Alexia e MM3. Nas monitor, ainda que o corpo fosse menor, o foco, o recorte e os planos se apresentaram mais precisos e coerentes. Nas duas caixas maiores, o palco era menor em profundidade e largura. Como ainda estávamos com as Epicon 8, que era o meio termo entre as monitor e as ‘supercolunas’, decidimos tirar a prova dos nove! O resultado em termos de soundstage foi mais próximo das monitor, mas como sua sensibilidade é menor que das Alexia e MM3, o integrado teve mais dificuldade em conduzir as caixas em obras sinfônicas e big bands! Relato todos esses detalhes para o amigo leitor, na tentativa de dar pistas sólidas de como é preciso muita paciência para se ajustar um sistema categoria Diamante.
CONCLUSÃO
Para quem se destina o integrado SLI 80? Enquanto o ouvia e conhecia todas as suas qualidades, essa pergunta me veio diversas vezes à mente, pois ainda que seja um produto de entrada na linha de amplificadores da Cary, sua proposta e apresentação são de gente grande! Ele é um integrado que pela sua faixa de preço concorre diretamente com diversos integrados de estado sólido que possuem no mínimo o dobro de sua potência, com mais recursos, entradas etc.! Será que o jovem audiófilo se sentiria interessado pelo integrado SLI 80? Ou ele está fadado a seduzir apenas o mais experiente audiófilo? Arriscaria dizer que, se bem demonstrado com os pares corretos, é bem capaz dele deixar muito jovem audiófilo e melômano coçando a cabeça, pois ouvi algumas gravações do Led Zeppelin, The Who, Genesis e Yes neste integrado e escutei nuances e detalhes que muito integrado de estado sólido não mostra! Provavelmente os integrados de estado sólido tenham maior visceralidade, tensão e peso, mas o detalhamento e a sutileza de se escutar todas as nuances e microvariações se perdem no meio de todo o ‘ímpeto’ próprio das topologias de estado sólido! Tudo é uma questão de escolha, amigo leitor! O melhor dos dois mundos no mesmo pacote custa um caminhão de dinheiro! O que posso afirmar categoricamente é que se a escolha recair pelo integrado SLI 80 as audições serão repletas de calor, naturalidade e uma ausência de fadiga absoluta, mesmo em audições longas. E com uma vantagem: a um custo ainda possível, você estará resgatando praticamente toda a sua discoteca! Não é uma proposta interessante e inteligente?

AMPLIFICADOR INTEGRADO CARY SLI 80
Equilíbrio Tonal 9,0

Palco Sonoro 9,0

Textura 10,0

Transientes 10,0

Dinâmica 9,0

Corpo Harmônico 10,0

Organicidade 9,0

Musicalidade 12,0

Total 78,0